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MEB

O MEB - Movimento de Educação de Base, a organização comunitária e a preservação
ambiental
Delma Pessanha Neves*
Resumo:
Por volta da década de 1960, representantes locais da Igreja Católica nos municípios do entorno de
Tefé, Amazonas, Brasil, que conformavam uma Prelazia, investiram na organização política da
população que habitava às margens dos rios da bacia do Médio Solimões. Para tanto, constituíram
politicamente tais habitantes em ribeirinhos (comunitários), condenando um suposto modo anterior
de vida categorizado como isolado. Tentando integrar a todos pelo mesmo modelo, os agentes
eclesiásticos também instituíram a diversidade das formas associativistas ou comunitárias de
resolução de problemas públicos. Neste artigo, considerando os modos de constituição do campo
religioso e da catequese junto aos habitantes do município anteriormente citado, analiso as formas
de deslocamento na constituição do devoto, para esses efeitos categorizado como agente associativo
e comunitário.
A construção da Amazônia como região se constituiu, através dos séculos, em objeto de
intermináveis especulações, quase todas orientadas pela adoção de formas de apropriação de
recursos, cuja grandeza está associada, muitas vezes, à infinitude. De modos diversos, sob
associações e parcerias provisórias e complementaridades nem sempre longamente reproduzidas,
instituíram-se os interesses pela apropriação territorial e pela exploração extrativista, segundo
objetivos mercantilistas. Estas ações se reproduziram sob os marcos da autoridade estatal, mas
também pela expansão de um saber acadêmico e prático, justificados pelo ideário missionário e
religioso. Assim agentes estatais se compuseram e também se contrapuseram. Como todos eles
operaram e operam na consolidação do processo de colonização, cada um deles imprimiu marcas
e formas de exploração próprias. A diversidade de condições de consolidação de hegemonia
imprime à população modos diferenciados de participação e de se constituir socialmente, embora
haja unanimidade na avaliação de que os amazonenses ainda se encontram sob o regime
colonial, orientado por interesses externos à nação brasileira.
As primeiras incursões sobre o território hoje identificado como Médio Solimões
estiveram a cargo de contextuais empreendedores, reconhecidos como aventureiros, a serviço
* Antropóloga, professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia, pesquisadora do CNPq.
Rua Gavião Peixoto 399 apartamento 1401, Icaraí, Niterói, 24230-093, estado do Rio de Janeiro, Brasil Email:
mdebes@provide.psi.br
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dos interesses das Coroas Espanhola ou Portuguesa.1 Pelas informações que circularam, tais
aventureiros colaboraram assim na construção das formas primevas de extrativismo ou na
definição das condições de apropriação do território. O extrativismo se fixou como modelo de
exploração econômica e subordinação impiedosa e violenta da força de trabalho, descartável tal
qual a mercadoria embarcada para outras plagas.
O modelo mais acabado do extrativismo se constituiu em torno do sistema seringal,
forma violenta de imobilização da força de trabalho, gravitada em torno do princípio de troca do
aviamento, base institucional da consolidação do capitalismo mercantil.2 A amplitude desta
forma de exploração secundarizou outros modos de apropriação dos recursos naturais; e outros
segmentos de trabalhadores autônomos, porque não se encontravam diretamente subjugados ao
sistema seringal.3
No quadro dessas relações, os patrões e os regatões, ora se complementando ora se
contrapondo, articulavam um universo social cujos contornos eles mesmos contribuíam de forma
vigorosa para delimitar. Para os seringueiros, através do sistema de barracão, os patrões
asseguravam a reprodução imobilizada. Para os demais segmentos de produtores espalhados
pelas margens dos rios, os regatões constituíam as redes de interligação com o mundo
circundante e asseguravam o suprimento de sal, açúcar e outros produtos básicos ao
complemento da produção de subsistência. Por esta razão, estimularam e apoiaram a atividade
pesqueira e o beneficiamento de peixes, mercadoria erigida em mediação fundamental a este
sistema de produção e dominação.
O desenvolvimento da economia da borracha, sustentada inclusive pela incorporação de
embarcações a vapor, facilitou a circulação de mercadorias e consolidou a existência, mesmo
que rarefeita, de um campesinato autônomo e de apropriação marginal dos fatores de produção
no que tange à vinculação mercantil.
Ultrapassado o ciclo da exploração das seringueiras como atividade fundamental, a
presença dos regatões diminuíra. Esta presença mais rarefeita, em grande parte, estimulara a
descida (termo de uso local para se referir ao movimento no sentido da foz do rio) da população
1 Este é o caso de Diogo Nunes de Quesada que, compondo expedição com espanhóis, visitara a região em 1538.
Logo após, Frei Gaspar de Carvajal, pertencente à Ordem dos Dominicanos, descreveu uma viagem pela região, no
ano de 1542, registrando a presença de inúmeras aldeias de nações indígenas. Relatos do mesmo teor, ora exaltando
a numerosa presença de grupos indígenas, a hospitalidade com que os visitantes foram recebidos ou a morte de
muitos dos nativos em batalha pela defesa do território, foram apresentados por Francisco Vásquez, em 1560 (cf
Ribeiro, 1996).
2 Minha interpretação é convergente com a de Souza (2001), no que tange aos pressupostos básicos da associação
entre colonização e capitalismo mercantil.
3 Para as análises aqui apresentadas, além da valorização da referência da memória coletiva dos entrevistados, pude
me beneficiar das contribuições analíticas apresentadas por MacGrath, 1999:57-72 e Souza, 2001.
3
em busca da proximidade de centros comerciais. Na alquimia da representação polarizada dos
tipos sociais, os seringueiros, cantados e decantados pela bravura, pelo sofrimento, pela solidão,
foram sendo repostos pelos ribeirinhos. Estes, agregados em torno de grupos domésticos,
dedicados à agricultura sazonal, à pesca, à coleta de frutos, à caça e à derrubada da floresta,
atendiam agora aos interesses dos madeireiros, além de suprirem os regatões especializados no
comércio de peixes secos.4
A referência dos entrevistados quanto a este contexto, acentua o movimento de descida
dos rios, também animados por notícias alvissareiras que apontavam para investimentos estatais
concentrados em núcleos de desenvolvimento. O norte era a constituição do parque industrial de
Manaus, então a referência principal. E assim, torna-se reconhecida a história social dos
ribeirinhos, desde que compreendida como categoria que, por esta perspectiva, abarcaria amplo
segmento de ex-seringueiros (e seus descendentes).5 Nesse contexto, migraram das colocações
(unidades individuais de extração integradas ao sistema produtivo do seringal), tanto para
atividades de subsistência e mercantis, sob a condição de produtores agrícolas nas beiras ou nos
beiradões (margens dos rios), quanto para a residência na periferia das cidades, sob a condição
de assalariados.6
Do ponto de vista desse reconhecido agente constituído sob a perspectiva da mobilidade,
o espaço de referência do universo de significações incorpora o Alto e principalmente o Médio
Solimões, num deslocamento naturalizado pela recorrência e espontaneidade do uso dos termos
subir o rio e descer o rio; pela referência ao estar viajando; e pelo reconhecimento da abertura
do universo social e simbólico alcançada fundamentalmente pelo trabalho junto aos regatões ou
às equipes de recreios, tanto para homens, como para mulheres jovens, isto é, de idade entre 18 e
30 anos.7 Este engajamento qualifica então um «novo» e diferenciado ser social, capaz de
elaborar desnaturalizações pela contraposição a modos de vida semelhantes e diversos. E, por tal
distinção social, embora constituídos na posição através das funções de carregadores,
cozinheiros ou serviçais em barcos recreios ou comerciais dos regatões, lançam-se eles próprios
ao trabalho de mediador cultural para abertura de universos dos demais ribeirinhos.
4 Esta interpretação leva em consideração a memória coletiva dos entrevistados.
5 Os agricultores de várzea do Médio Solimões são reconhecidos por designação mais difundida como ribeirinhos.
6 O registro dessas representações pode ser melhor compreendido pela leitura do livro A Irmã Adonai e a luta social
dos ribeirinhos, por mim organizado para colaborar na institucionalização deste processo de produção de memória
coletiva. Versão mais ampla está sendo por mim preparada, sob o título A luta social dos ribeirinhos. Ambos os
textos se compõem de trechos de entrevistas realizadas durante o trabalho de campo desta pesquisa.
7 Estou referenciada pelas advertências metodológicas de Bourdieu (1989) para desconstrução/construção do termo
região.
4
Tanto a memória coletiva dos entrevistados como a perspectiva hegemônica da literatura
exaltam o intenso e paralelo processo de migração interna, da população mobilizada no nordeste,
e daquela desde há muito fixada na região.8 O destaque ao intenso processo de liberação de mãode-
obra põe em relevo uma dispersão sem outra orientação econômica catalizadora. Esta lógica
explicativa, ao se ancorar na interpretação dos processos econômicos dissociados por ciclos,
valoriza as formas de participação da população frente à sucessão de cultivos ou de extração,
secundarizando a diversidade de vínculos econômicos. Assim, o registro da ruptura da relativa
autarcização dos seringais, da libertação também relativa do aviamento9 e da busca de
referências externas pelos ex-seringueiros, destaca o declínio da população e sua dispersão, até
que ela reapareça vinculada ao cultivo da juta, também desenvolvida por iniciativa
governamental, mas mediada por regatões.10
As cidades de Tefé e Coari, principais na região do Médio Solimões, vão então se
consolidando como centros centrípetos e centrífugos de comercialização e de intermediação de
circuitos mercantis, com destaque para o comércio de produtos alimentícios, vestuário e
armarinho. E também como sedes de centralização de instituições de prestação de serviços,
causa e efeito do direcionamento dos fluxos migratórios no sentido centrífugo. Com exceção das
unidades produtivas de beneficiamento da madeira e de minerais não-metálicos, pode-se afirmar
a inexistência de processos de constituição de indústrias até a década de 70 do século findo. É
o setor de comércio que assegura a integração econômica da população. A expansão e a
diversificação do consumo constroem diferenciados circuitos de vendas de mercadorias
deslocadas de outros centros de produção.11
8 A análise dos dados censitários construídos para computação dos habitantes do estado do Amazonas,
relativamente aos da região Norte, revela a restrição da eficácia da extração da borracha na mobilização e
crescimento do contingente de força de trabalho direta ou indiretamente potencializada. Entre 1872 e 1920, a
população no estado do Amazonas se elevou de 57.610 para 514.099, enquanto que a da região norte como um todo
se deslocava de 332.847 para 1.844.655 habitantes (Evolução da população do estado do Amazonas e da Região
Norte: Censos 1872 a 1950, Anuários Estatísticos, IBGE). O crescimento da população entre 1872 e 1890 está
articulado ao processo de migração de nordestinos para região Norte, assolados por secas das mais intensas
ocorridas em 1877 e 1888 e décadas subseqüentes. Entre 1872 e 1920, a população na região se expande em
332,0%. Entre 1920 e 1940, ela ficou estagnada, acompanhando o declínio da extração da borracha. A partir de
1940, diante dos acordos de Washington e os conseqüentes investimentos públicos e privados, o fluxo migratório
para a região norte foi reiniciado. Os censos de 1950 e 1960 registraram oscilação de população entre 1.844.665 e
2.601.519 habitantes, portanto, incrementos de 29% e 77% sobre a base demográfica de 1940.
9 Forma intermediada de trocas mercantis de diversas ordens, referenciadas pela reciprocidade negativa e sistema de
dominação pessoal.
10 Agentes intermediários de trocas mercantis referenciadas pela subordinação pessoal, a partir das quais os
produtos agrícolas e extrativos locais alcançam grandes mercados e seus produtores obtêm outras mercadorias
necessárias, geralmente ao consumo improdutivo, e créditos sob a forma usurária.
11 Sobre os desdobramentos dessa modalidade de intervenção produtiva por instâncias estatais, ver Barbosa,
1986:389-400.
5
Os ribeirinhos são policultores familiares (agricultores, principalmente, mas também,
complementarmente, pescadores e extratores de recursos da floresta), que, operando em
ambiente de várzea, áreas situadas nas margens de rio, sujeitas a inundações periódicas (de
maior ou menor intensidade), gerem disposições específicas. Circunscrevem o aproveitamento
de áreas agricultáveis a cultivos de ciclo curto. No caso em apreço, a utilização agricultável
abarca 5 a 6 meses, entre uma e outra alagação. E, por essa relação com os recursos naturais, são
portadores de saberes, técnicas, estratégias e alternativas peculiares à convivência com esta
forma de sazonalidade. Mas são também atingidos por efeitos deletérios de ações predatórias que
provoquem estranhas interdependências ao equilíbrio do ecossistema.
Convivem com alagações sazonais e secas, sob alterações relativas no tempo.12 Todavia,
no momento atual, essas alterações são avaliadas pelos entrevistados como produtoras de
desorientações quanto à gestão do tempo e da apropriação de recursos naturais, mormente se eles
fundamentam atividades orientadas por objetivos mercantis. São poliprodutores que planejam os
investimentos produtivos e a gestão do tempo pela regularidade, por esta expectativa proclamada
secular. Portanto, os desvios, mesmo que os atribuindo a uma desenfreada, desquilibrada ou
predatória apropriação dos recursos naturais, são ainda concebidos como contextuais. Poucos
desses entrevistados prenunciam diferenças que induziriam a mudanças estruturais no modo de
relacionamento com os recursos naturais; mesmo porque, acreditam e investem num retorno a
um equilíbrio optimum, desejado ou proclamado, caso as regras de reprodução mútua (dos
homens e do ambiente natural) sejam respeitadas.
Há 30 ou 40 anos atrás, delimitam, essas adaptações eram mais facilmente geridas: ao
alagamento inaceitável, ao fenômeno da terra caída, à expansão exacerbada da extensão das
praias, à dificuldade de acesso à água durante a seca, os moradores de várzea adotavam o
deslocamento da apropriação territorial. Desfilam então com relativa desenvoltura essas
mudanças daqui para ali e dali para acolá. Hoje, avaliam, esse deslocamento se torna mais
limitado, pela definição mais geral das formas de apropriação do espaço das margens dos rios.
Essas mudanças nas formas de apropriação da terra eles qualificam pelas sentenças: hoje essas
terras todas já têm dono; hoje já não existe mais terra devoluta.
Todavia, a configuração de um espaço sócio-econômico, pelo ponto de vista de muitos
dos entrevistados, deve-se aos investimentos para implantação e expansão do sistema católico de
articulação das populações, princípio a partir do qual a concepção da região se altera pelo
12 No que tange ao município identificado, o ciclo de alagações e vazantes/secas configura dois modelos de
organização da vida social e produtiva. O das cheias, que ocorre entre março e junho/julho; e o da vazante/seca,
6
encapsulamento de outros municípios não considerados pelas categorias do sistema
classificatório oficial. A visibilidade deste princípio de integração se expressa pela identidade de
afiliação a uma das Prelazias e pelo delineamento de circuitos de troca e de fluxo populacional
que denunciam o alegado abandono dessa população à sua própria iniciativa.13
A Igreja Católica e o método das desobrigas.
A partir do século XVII, os investimentos intermediários colocados em prática por
diversas ordens religiosas marcaram o tom do caráter da colonização portuguesa, atrelada às
ações mais consistentes no sentido da reconversão de grupos indígenas. Destaca-se então o
jesuíta espanhol Cristóbal de Acuña, autorizado por Felipe IV da Espanha a viajar pelo rio
Amazonas em companhia do capitão-mor Pedro Teixeira, para realizar exaustivo levantamento
sobre os habitantes e as riquezas a serem exploradas. Para fincar as condições práticas de
programa de catequese em que se fundou a colonização, frei Laureano de la Cruz, em 1650,
esteve entre os rios Juruá e Tefé. Dessas incursões, a de efeitos mais práticos esteve a cargo do
Padre Samuel Fritz, que fundou várias missões ao longo do rio Solimões e a quem se atribui a
fundação de Tefé, sob esse mesmo prisma de integração legitimada por ação catequética.14
Na região de Tefé, à fixação dos interesses da Igreja Católica pela fundação da aldeia
pelo jesuíta Samuel Fritz, a serviço da Espanha, entre 1686 e 1688, seguiu-se a evangelização
praticada por padres e irmãos carmelitas, entre 1718-1798, ordem sob tutela da Coroa
Portuguesa. A seguir, há investimentos de ordens religiosas de vinculação com o governo
italiano, mas a ação mais duradoura esteve a cargo dos espiritanos de origem francesa.15
Em 1885, os padres espiritanos desembarcaram em Belém para iniciar os trabalhos de
constituição de um seminário. Em 1897, marcaram a presença em Manaus e em Tefé, onde
iniciaram a construção da sede da Congregação do Divino Espírito Santo em Missão, na boca do
Tefé, e na área onde se encontra a cidade. Destes pontos de irradiação, expandiram a ação
missionária pelas calhas dos rios Solimões, Japurá e Juruá. Construindo escolas para meninos e
meninas, ampliaram o número de sacerdotes e irmãos para consolidar o investimento político-
entre agosto-setembro e fevereiro, com repiquete (curto período de subida das águas) esperado por volta de
dezembro.
13 A primeira expressão de tais relações intermunicipais exalta a dispersão da população e a migração para áreas
ribeirinhas do Solimões, em face da secundarização do processo de extração da seringa. Posteriormente, pela
criação da zona franca de Manaus, a saber, pela criação de outros princípios de inserção no mercado de trabalho e
expansão da comercialização, alternativas cuja apropriação pressupôs instrumentos diversos de pressão no sentido
do acesso ao ensino básico.
14 Cf. Ribeiro, 1996 e Schaeken, 1997.
15 Cf. Schaeken, 1997 e Internet.
7
missionário e moldaram os costumes de uma constituinte população mais vinculada à
administração da gestão local.
De 1948 a 1981, o bispo da Prelazia de Tefé criou Paróquias em Carauari, Alvarães, Foz
do Jutaí, Itamarati, Uarini, Caitaú, Maraã e Fonte Boa. Data também deste contexto a abertura da
Escola Normal Rural e do Ginásio Espírito Santo, instituições responsáveis pela formação dos
quadros da administração municipal.
A importância da Igreja Católica na construção do sistema de poder em que se fundou o
processo de colonização também perenizou suas marcas nos mais importantes edifícios até hoje
erguidos em Tefé e Missões, onde funcionavam o Seminário São José (1913), o Colégio Santa
Tereza ou Escola para Meninas (1919), o Seminário situado nas Missões (1897) e a Escola
Agrícola e Industrial de Boca do Tefé, criada em 1898, dotada de diversas oficinas para
formação de trabalhadores manuais especializados. À obra dos espiritanos vieram se agregar, em
1925, as representantes das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, voltadas para educação
das moças destinadas às tarefas domésticas e aos primeiros atendimentos médicos. Embora
a ordem espiritana tenha permanecido a mesma, a partir de 1946 ela fora reproduzida através da
presença de padres de origem holandesa, que lá permaneceram até recentemente.
As ações em parceria entre protagonistas da Igreja Católica e do Estado para constituição
do sistema de poder econômico e político alcançaram longevidade. Excetuam-se os momentos de
pressão de outras associações religiosas e corporativas, por ocasião da proclamação da república,
quando, por exemplo, representantes dos interesses da Maçonaria questionaram a transferência
de subsídios para institutos educacionais da Igreja. Todavia a aliança de interesses foi reafirmada
até que o sistema de ensino foi sendo assumido pelo Estado como prestação de serviço de direito
universal. Atualmente, nos dois municípios, os prédios que antes serviam aos educandários
religiosos estão alugados ao governo do Estado, cujas secretarias de educação administram
cursos de ensino médio.
Os viajantes dos séculos XVI a XIX registraram a presença de vários agrupamentos
indígenas fixados nas margens dos rios, mas as ações dos espiritanos e dos redentoristas
acentuaram o trabalho de catequese concentrado nas sedes institucionais. Por isso, no registro da
memória do processo catequético, há insistente relevo sobre o número de órfãos e órfãs tutelados
pelo educandário ou de jovens a serem instruídos segundo padrões europeus.
O principal investimento catequético dos porta-vozes da Igreja Católica em relação à
população que fixara residência nas margens dos rios fundamentava-se no modelo das
desobrigas, trabalho missionário difundido em viagens anuais através de canoas a remo, quando
os agentes eclesiásticos reafirmavam o sistema de crenças e a afiliação dos catequizados, pela
8
participação em rituais de comunhão e batismo.16 As desobrigas representavam atos de
mobilização para ampliar as adesões, mas também momentos de escuta e tomada de
conhecimento das condições de vida dos que estavam afastados das sedes dos municípios. Por
esse contato, mesmo que descontínuo, os agentes eclesiásticos foram consagrados, inclusive por
auto-atribuição, especialmente do bispo, enquanto porta-voz das demandas frente a uma
presença ativa do Estado junto à população. As reivindicações giravam em torno da assistência
médica e da universalização do sistema de ensino fundamental. Através de doações vindas de
organizações religiosas internacionais, o bispo da Prelazia de Tefé construiu o Hospital São
Miguel, inaugurado em 1968, hoje entregue ao governo estadual. Também antecipou-se à ação
do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, pela instalação da Radio Rural de Tefé,
para ministrar aulas radiofônicas.
A reivindicação da presença de serviços advindos do Estado, num contexto de
redefinição de seu papel, a partir do golpe militar, permitira que no município de Tefé se
instalasse a ACAR, em 1970, tempos depois substituída pela EMATER e, mais adiante, pelo
IDAM. Naquele contexto, a ACAR estava definida como instituição parceira no processo de
difusão de novos saberes e de adesão a visões de mundo consideradas sob o prisma da abertura
de universo.17 Da mesma forma, pela liderança do bispo de Tefé, demandas foram encaminhadas
para instalação do campus avançado da Universidade de Juiz de Fora, sob afiliação ao Projeto
Rondon, ato celebrado e oficializado em 13 de junho de 1969. Através dos cursos oferecidos por
este programa de extensão, a cidade de Tefé passou a contar com um quadro de funcionários
capazes de melhorar e ampliar a pauta de serviços, especialmente educacionais.
O MEB – Movimento de Educação de Base e a devoção associativista
A prática educativa difusionista fora consolidada pela ação direta dos agentes
educacionais do MEB, instalado no início da década de 1960. O MEB fora definido como
instituição paralela às ações missionárias e ao quadro de agentes catequistas, estimulando a
constituição de presidentes e diretorias de clubes comunitários, clube de mães, cooperativas e
sindicatos.
16 A desobriga, método pastoral hegemônico até o final da década de 60, era prática comum entre as diversas
ordens religiosas presentes na Amazônia. As missões nela objetivadas implicavam um plano de visitas ou o
agendamento cronológico na ida da comitiva e a realização dos atos rituais na volta. Exprimia assim a
descontinuidade do investimento institucional em face da dispersão da população.
17 Sobre a instalação dessas instituições de difusão de tecnologia, baseio-me no texto de dissertação de mestrado de
Ramos de Albuquerque, 1984.
9
A presença de todas essas instituições provocou deslocamentos em termos de hegemonia
de projetos de integração da população. Os titulares locais da igreja Católica, em sintonia com
novos projetos libertários propostos pela diretoria nacinoal de seu corpo eclesiástico,
apresentaram-se então como portadores de um projeto pedagógico emancipatório de libertação
da população. E, assim, abraçaram ou construiram a causa dos ribeirinhos e lhe deu visibilidade
política. Neste contexto, os ribeirinhos eram exaltados pela carência, mas também pela
potencialidade transformadora de sociedade.
Assim, da realização da desobriga (visitas específicas de sacerdotes para ministrar
sacramentos) e da valorização da devoção doméstica, o método missionário passou a preconizar
a promoção social e evangélica. Ela fundamentava-se no exercício de reflexão que viesse a
permitir o reconhecimento das condições de existência do ribeirinho, das causas que assim o
constituíram. Desta perspectiva, ele, necessariamente, estava fadado à mudança, inclusive das
alternativas das condições de vida.
Em 1972, a Prelazia de Tefé cria as CEB’s e, a partir de uma nova concepção de Igreja
Viva, não totalmente dependente da ação de padres e irmãos, consolida a ação missionária
sistemática, de eficácia contraposta às descontínuas desobrigas. O trabalho missionário fora
então transferido para os agentes pastorais e expandido pelos aglomerados fixados às margens
dos rios, desde então reconhecidos como comunidades.
Segundo a memória dos entrevistados, eles acederam ao convite, por vezes insistente, dos
representantes do MEB, para que se agregassem e se unissem, de modo a se tornarem
beneficiários de recursos de destinação comum, caso em especial da escola. E desde então foi
instituído um modo de organização social e política, cuja expressão mais visível gravitava em
torno do trabalho gratuito para a construção de escolas, casas comunitárias e campos de futebol.
A adesão dos ribeirinhos, agentes da legitimação do proposto convívio fraterno dos parentes e
vizinhos, correspondeu à transferência de um rádio – o cativo –, posto que apenas autorizado a
transmitir atos religiosos e aulas para alfabetização de crianças e adultos.
Também por influência dos agentes eclesiásticos, é constituído em Tefé, em 1974, o
Projeto Agrovila, destinado a famílias ribeirinhas vitimadas pelas sucessivas enchentes do início
desta década. Os agricultores foram então orientados para o desenvolvimento de culturas
perenes, criação de animais de pequeno porte. Deslocando-se para terra firme, mantiveram-se
referenciados a um modo de vida organizado pelo ideário do contrato entre os comuns, reificado
na idéia de comunidade ou vila comunitária.
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Na Prelazia de Tefé foram instituídas as Pastorais, inclusive Rurais, agregação a partir da
qual foi coletivamente elaborado o ideário humanitário e cristão que estimulou, de início
festivamente, os ribeirinhos em torno da luta pela preservação dos lagos.
Evangelização e preservação ambiental
As formas de organização política dos ribeirinhos frente à luta pela preservação de lagos
guardam aproximação com os modelos de agregação oferecidos como referência pela
intervenção da Igreja Católica, através de suas instituições paralelas. O trabalho educativo para
inculcação do modelo comunitário de construção de identidade, reafirmava as relações
consangüíneas e afins do parentesco e a consagração dos laços de vizinhança. Essas relações
constituíram substratos às formas de instituição do nós, agora irmanados pela referência ao
sistema de crenças cristão. Os ribeirinhos, no caso cristãos praticantes agregados em
comunidades (rurais), e agentes mobilizadores afiliados ao MEB são então partes da mesma
historia.18 Por esta ação política, as unidades de consolidação do sistema de poder local foram
desenhadas por divisão espacial e regional específica: configuradora da presença e da
abrangência da Prelazia em municípios.
As condições de construção do problema ambiental (capitaneadas pela ação missionária)
decorreram de um contexto político de mudança no processo extrativista e de captura,
intensificado diante de novos recursos tecnológicos e, por isso mesmo, realizado em condições
que excedem as possibilidades de reprodução dos homens e dos animais. A captura predatória
das aves e dos peixes foi então colocada em questão, tendo em vista o reconhecimento dos
interesses dos ribeirinhos, condenados, por tais fatores, à escassez e à fome acumulativas.
O corpo de agentes da Prelazia de Tefé conseguiu, a partir da década de 80, organizar
uma atuação sistemática em agrupamentos redimensionados enquanto comunidades de base.
Muitas delas foram atingidas por escolas radiofônicas e alguns desses lugarejos estão
integrados através do culto dominical. Sob esta base organizativa, os problemas e denúncias dos
ribeirinhos (cristãos) foram transformados em questões políticas encaminhadas para
reconhecimento pelos titulares do poder municipal e estadual (local). A questão ecológica, não
se apresentando como problemática em si mesma, operou e opera como instrumento de
mediação para incorporação de outras vertentes da organização suscitadas pela evangelização. O
18 Em conseqüência, a maior parte dos textos que registram as condições de vida dos ribeirinhos é construída no
contexto da literatura produzida por agentes do campo religioso. Destacam-se aqueles (textos) que integraram os
11
texto emblema da construção da problemática, a seguir reproduzido, é esclarecedor da
interpretação por mim anunciada:
«Evangelizar é colocar-se a serviço da vida. ‘Que todos tenham vida e a tenham em abundância’.
A pastoral rural destaca que o relacionamento com a natureza é uma dimensão da existência humana
iluminada pelo Evangelho. Preservar o meio ambiente é condição essencial para preservar a própria
vida humana»(Regis, 2001: 56).
Os princípios éticos e filosóficos que orientam as ações sociais com vistas à preservação
ambiental assim se fundamentam:
"O que Deus criou foi bom. Continua bom. Será que sabemos usar os bens da sua criação? A mãe
Natureza impõe condições para alimentar e enriquecer seus filhos. Ela nos oferece muitos presentes.
Não devemos ser gananciosos, querendo arrancar de suas mãos seus tesouros. Boas maneiras pedem
que pesquisemos primeiro para saber o que fazer.
Deus disse: fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra...
E Deus viu que isso era bom:
Há muita água na Amazônia. E muitas variedades de água. A água num lago, perto de um grande
rio, não é igual em composição à que faz parte de um igarapé de terra firme.
A harmonia ecológica é tão sutil que a diminuição ou a eliminação de árvores frutíferas da várzea
provoca uma queda na produção de peixes nos rios e lagos. Os peixes alimentam-se de frutas que
caem dos galhos nas épocas de cheias ou das folhas da vegetação ribeirinha.
Um pássaro ou ave não é útil apenas por sua capacidade de cantar e nos alegrar, o que já seria algo
importante. Tem uma variedade de funções no ecossistema, e sua perda seria algo lastimável. Uma
terra sem pássaro é um lugar amaldiçoado (texto apócrifo, impresso para pedagogicamente referenciar
reuniões de catequistas/agentes comunitários).
Este é o ideário em torno do qual os ribeirinhos católicos organizam o trabalho
comunitário para tentar deter a entrada destruidora de pescadores e peixeiros. De início, os
efeitos foram tão visíveis que estimularam uma ampla adesão. Todavia, as constantes disputas
entre vizinhos, os riscos de conflitos abertos com pescadores, as perseguições políticas - muitas
vezes acompanhadas de violência física, em casos mais extremos, de assassinato -, ao lado de
uma ação concebida como injusta por parte dos funcionários do IBAMA, têm desestimulado os
ribeirinhos na continuidade da preservação dos lagos. E têm também levado à secundarização da
atividade de pesca, especialmente aquela em que tempo e recursos sejam mais mobilizados e, por
meios de objetivação dos princípios missionários definidos pelos documentos da CNBB, destinados a orientar a
ação pastoral dos agentes do MEB.
12
conseqüência, maiores riscos de perda por apreensão de instrumentos de trabalho e pagamento
de multas.
Por iniciativa de titulares da prefeitura, alguns lagos foram preservados e certos deles
selecionados por portarias expedidas pelo IBAMA - Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e
Recursos Naturais Renováveis. No entanto, devido aos conflitos deflagrados em função da
contraposição (direta e pessoal) que ribeirinhos devem assumir diante dos pesqueiros ou
vizinhos orientados por interesses diversos, na prática nenhum dos lagos alcança o status de
preservado ou protegido. São então invadidos constantemente e, na maioria das vezes, pelos
próprios moradores interessados na expansão mercantil da captura de peixes.
O debate em torno da sustentabilidade ambiental também se consubstancia por uma
prática de denúncia e encaminhamento de reivindicação de imposições de limites aos riscos de
destruições, decorrentes da implantação do núcleo de exploração da Petrobrás no Rio Urucu e
Solimões. Estes riscos, pela perspectiva dos agentes que se sentem ameaçados, ampliam-se
diante da construção de um poliduto e gasoduto para escoar a produção.19
Em algumas circunstâncias, os representantes da Prelazia de Tefé apoiam a transferência
de ações por alguns funcionários do IBAMA, especialmente aquelas delegadas ao (voluntário)
agente comunitário erigido à função de preservador de lagos ou peixes, sob o cargo informal de
agente ambiental.
A despeito de a questão do controle dos lagos ter emergido há aproximadamente 30 anos,
ela, até o ano de 2004, quando finalizei o trabalho de campo, ainda não obteve um
reconhecimento que lhe assegure autonomia nas práticas de interferência por modalidade de
políticas públicas. A preservação dos lagos continua a contar com investimentos de lideranças
vinculadas à igreja, encarregadas da negociação com pesqueiros invasores.
Na medida em que os agentes locais não obtêm apoios institucionais mais amplos, eles se
submetem a desautorizações e, não raramente, a riscos de extermínio absoluto por outros tantos
que, não os reconhecendo como autoridades dotadas de legitimidade e legalidade para limitar o
ir-e-vir e a apropriação de recursos naturais, atribuem-lhes desavenças pessoais, solucionadas
segundo certos códigos locais de conduta e honra.
Tais ações estão longe de reproduzir o sistema de parcerias institucionais que subjaz aos
movimentos de luta pela sustentabilidade ambiental. Pelo contrário, são incursões que aparecem
19 Alguns ribeirinhos referem-se a problemas de erosão causados pelo aumento da intensidade de banzeiros
(movimento das águas em ondas, diante de ventos fortes e deslocamentos por passagem de embarcação de grande
calado ou de rápida velocidade), decorrentes da passagem de aerobarcos e de grandes navios de carregamento de
petróleo. Em comunidades localizadas mais próximas aos canais de navegação de grandes barcos, esta erosão vem
causando enormes prejuízos pela queda de dezenas de mangueiras, geralmente carregadas de frutos.
13
como modos de imposição de perspectivas e temáticas. Estão muito distanciadas das percepções
instituídas pelo convívio com agentes idealizadores da sustentabilidade como valor ético para a
economia e certos modos de vida. Essas precárias associações locais não permitem a formulação
de modelos de gestão ambiental, não asseguram a diversificação das atividades econômicas e
manejo de sistemas extrativistas segundo a preservação de espécies.
Esta categorização ultrapassa o sentido da localização ou habitat, para dimensionar o
caráter sócio-político da constituição e reprodução de um grupo social.20
Considerações finais
Para compreender a posição política e econômica com que são reconhecidos os
ribeirinhos, é fundamental entender os investimentos políticos na conformação de padrões de
comportamentos e atitudes, de ethos e visões de mundo, mais facilmente perceptíveis em
cristalizações institucionais. É mister trazer à tona, por meio da reflexão, os respectivos
exercícios de imposição de modos de relacionamento e de adoção de referências
comportamentais. É o caso da associação da identidade desses produtores com um território,
unidade político-administrativa e cooperativa cujo pertencimento assegura inúmeras formas de
legitimidadde às suas ações. Estes produtores se apresentam como agentes sociais numa ou a
partir de uma comunidade delimitada. Os significados atribuídos ao termo comunidade tornamse
impositivos ao entendimento das relações sociais em que estão integrados. Porém, a
complexidade aumenta porque o termo adquire múltiplos significados. Ora é a mínima unidade
territorial ou localidade; ora é unidade político-administrativa porque sede de prestação de
serviços públicos e comunais (escola, capela, campo de futebol, motor de luz, casa comunitária,
sede da associação de produtores). Dessa perspectiva, é base para formulação de demanda e
espaço público legitimado para os investimentos dos serviços municipais. Ora corresponde a um
grupo de lealdades primordiais, preferentemente com reconhecimento oficial, pelo registro da
fundação da associação em cartório. Equivale então à unidade associativa, base de gestão de
ações políticas.
Todos esses fatores não derivam tão somente das intenções de ribeirinhos mobilizados
por convivência com delimitações espaciais e temporais singulares. Eles também são caldatários,
20 Torna-se necessário reconhecer que o termo ribeirinho qualifica os moradores em margens de rios e lagos
sujeitas a inundações. Esta categoria tem sido estudada por diversos autores como Sigaud, et al., 1987: 214-290 e
Faria et al., 2002. No entanto, a referência imediata do termo tem levado, sob particularidade generalizante, à
associação com os que se encontram na Amazônia, talvez pela pujança da mobilidade do volume das águas, mas
também por todas as associações fantasmagóricas que são imputadas à Amazônia.
14
como demonstrei, da sua inserção em campos de forças sociais em concorrência e/ou
complementaridade, diante da construção e apropriação de recursos.
Estes campos de forças sociais são também organizados para constituição de um sistema
de produção e extração de excedentes; bem como de um sistema de poder correspondente aos
ideários que justifiquem as interferências civilizadoras sobre uma das Amazônias. Estas
representações ora acentuam o irretorquível, ora o indomável, ora o infinito, mas,
contraditoriamente, também um espaço de intervenção para correção de rotas, sinalizadoras da
aproximação de idealizações sobre uma natureza sacralizável; ou sobre uma natureza propícia à
realização de sonhos de acumulação de rapina. Todas essas intenções econômicas e políticas,
nesse mesmo campo, são produzidas e diferencialmente reproduzidas.
Por isso mesmo, é fundamental entender o campo de concorrências institucionais, cujos
agentes estão diferencialmente posicionados. E, nesse sistema de posições, inclusive os
ribeirinhos, isto é, aqueles motivados pelo desejo de serem reconhecidos como dotados de
atributos positivos. Estes atributos são aí formulados, isto é, por efeitos das relações de força
nesse mesmo campo constituídas. Essa apropriação, por efeito dessa dinâmica, assenta-se na
denúncia de que estão abandonados pelos poderes públicos, condição para o encaminhamento de
reivindicações qeu correspondam aos investimentos asseguradores de direitos sociais. Os
ribeirinhos participam assim da concorrência pelo investimento político capitaneado pelos que aí
disputam a hegemonia das formas de enquadramento, de adesão e de modelação da categoria
social que os reconhece socialmente. Portanto, ribeirinho é categoria mais política que
econômica, razão pela qual é alçada à remissão qualificadora de um modo de vida advogado
como sui generis.
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O MEB - Movimento de Educação de Base, a organização comunitária e a preservação
ambiental
Delma Pessanha Neves*
Resumo:
Por volta da década de 1960, representantes locais da Igreja Católica nos municípios do entorno de
Tefé, Amazonas, Brasil, que conformavam uma Prelazia, investiram na organização política da
população que habitava às margens dos rios da bacia do Médio Solimões. Para tanto, constituíram
politicamente tais habitantes em ribeirinhos (comunitários), condenando um suposto modo anterior
de vida categorizado como isolado. Tentando integrar a todos pelo mesmo modelo, os agentes
eclesiásticos também instituíram a diversidade das formas associativistas ou comunitárias de
resolução de problemas públicos. Neste artigo, considerando os modos de constituição do campo
religioso e da catequese junto aos habitantes do município anteriormente citado, analiso as formas
de deslocamento na constituição do devoto, para esses efeitos categorizado como agente associativo
e comunitário.
A construção da Amazônia como região se constituiu, através dos séculos, em objeto de
intermináveis especulações, quase todas orientadas pela adoção de formas de apropriação de
recursos, cuja grandeza está associada, muitas vezes, à infinitude. De modos diversos, sob
associações e parcerias provisórias e complementaridades nem sempre longamente reproduzidas,
instituíram-se os interesses pela apropriação territorial e pela exploração extrativista, segundo
objetivos mercantilistas. Estas ações se reproduziram sob os marcos da autoridade estatal, mas
também pela expansão de um saber acadêmico e prático, justificados pelo ideário missionário e
religioso. Assim agentes estatais se compuseram e também se contrapuseram. Como todos eles
operaram e operam na consolidação do processo de colonização, cada um deles imprimiu marcas
e formas de exploração próprias. A diversidade de condições de consolidação de hegemonia
imprime à população modos diferenciados de participação e de se constituir socialmente, embora
haja unanimidade na avaliação de que os amazonenses ainda se encontram sob o regime
colonial, orientado por interesses externos à nação brasileira.
As primeiras incursões sobre o território hoje identificado como Médio Solimões
estiveram a cargo de contextuais empreendedores, reconhecidos como aventureiros, a serviço
* Antropóloga, professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia, pesquisadora do CNPq.
Rua Gavião Peixoto 399 apartamento 1401, Icaraí, Niterói, 24230-093, estado do Rio de Janeiro, Brasil Email:
mdebes@provide.psi.br
2
dos interesses das Coroas Espanhola ou Portuguesa.1 Pelas informações que circularam, tais
aventureiros colaboraram assim na construção das formas primevas de extrativismo ou na
definição das condições de apropriação do território. O extrativismo se fixou como modelo de
exploração econômica e subordinação impiedosa e violenta da força de trabalho, descartável tal
qual a mercadoria embarcada para outras plagas.
O modelo mais acabado do extrativismo se constituiu em torno do sistema seringal,
forma violenta de imobilização da força de trabalho, gravitada em torno do princípio de troca do
aviamento, base institucional da consolidação do capitalismo mercantil.2 A amplitude desta
forma de exploração secundarizou outros modos de apropriação dos recursos naturais; e outros
segmentos de trabalhadores autônomos, porque não se encontravam diretamente subjugados ao
sistema seringal.3
No quadro dessas relações, os patrões e os regatões, ora se complementando ora se
contrapondo, articulavam um universo social cujos contornos eles mesmos contribuíam de forma
vigorosa para delimitar. Para os seringueiros, através do sistema de barracão, os patrões
asseguravam a reprodução imobilizada. Para os demais segmentos de produtores espalhados
pelas margens dos rios, os regatões constituíam as redes de interligação com o mundo
circundante e asseguravam o suprimento de sal, açúcar e outros produtos básicos ao
complemento da produção de subsistência. Por esta razão, estimularam e apoiaram a atividade
pesqueira e o beneficiamento de peixes, mercadoria erigida em mediação fundamental a este
sistema de produção e dominação.
O desenvolvimento da economia da borracha, sustentada inclusive pela incorporação de
embarcações a vapor, facilitou a circulação de mercadorias e consolidou a existência, mesmo
que rarefeita, de um campesinato autônomo e de apropriação marginal dos fatores de produção
no que tange à vinculação mercantil.
Ultrapassado o ciclo da exploração das seringueiras como atividade fundamental, a
presença dos regatões diminuíra. Esta presença mais rarefeita, em grande parte, estimulara a
descida (termo de uso local para se referir ao movimento no sentido da foz do rio) da população
1 Este é o caso de Diogo Nunes de Quesada que, compondo expedição com espanhóis, visitara a região em 1538.
Logo após, Frei Gaspar de Carvajal, pertencente à Ordem dos Dominicanos, descreveu uma viagem pela região, no
ano de 1542, registrando a presença de inúmeras aldeias de nações indígenas. Relatos do mesmo teor, ora exaltando
a numerosa presença de grupos indígenas, a hospitalidade com que os visitantes foram recebidos ou a morte de
muitos dos nativos em batalha pela defesa do território, foram apresentados por Francisco Vásquez, em 1560 (cf
Ribeiro, 1996).
2 Minha interpretação é convergente com a de Souza (2001), no que tange aos pressupostos básicos da associação
entre colonização e capitalismo mercantil.
3 Para as análises aqui apresentadas, além da valorização da referência da memória coletiva dos entrevistados, pude
me beneficiar das contribuições analíticas apresentadas por MacGrath, 1999:57-72 e Souza, 2001.
3
em busca da proximidade de centros comerciais. Na alquimia da representação polarizada dos
tipos sociais, os seringueiros, cantados e decantados pela bravura, pelo sofrimento, pela solidão,
foram sendo repostos pelos ribeirinhos. Estes, agregados em torno de grupos domésticos,
dedicados à agricultura sazonal, à pesca, à coleta de frutos, à caça e à derrubada da floresta,
atendiam agora aos interesses dos madeireiros, além de suprirem os regatões especializados no
comércio de peixes secos.4
A referência dos entrevistados quanto a este contexto, acentua o movimento de descida
dos rios, também animados por notícias alvissareiras que apontavam para investimentos estatais
concentrados em núcleos de desenvolvimento. O norte era a constituição do parque industrial de
Manaus, então a referência principal. E assim, torna-se reconhecida a história social dos
ribeirinhos, desde que compreendida como categoria que, por esta perspectiva, abarcaria amplo
segmento de ex-seringueiros (e seus descendentes).5 Nesse contexto, migraram das colocações
(unidades individuais de extração integradas ao sistema produtivo do seringal), tanto para
atividades de subsistência e mercantis, sob a condição de produtores agrícolas nas beiras ou nos
beiradões (margens dos rios), quanto para a residência na periferia das cidades, sob a condição
de assalariados.6
Do ponto de vista desse reconhecido agente constituído sob a perspectiva da mobilidade,
o espaço de referência do universo de significações incorpora o Alto e principalmente o Médio
Solimões, num deslocamento naturalizado pela recorrência e espontaneidade do uso dos termos
subir o rio e descer o rio; pela referência ao estar viajando; e pelo reconhecimento da abertura
do universo social e simbólico alcançada fundamentalmente pelo trabalho junto aos regatões ou
às equipes de recreios, tanto para homens, como para mulheres jovens, isto é, de idade entre 18 e
30 anos.7 Este engajamento qualifica então um «novo» e diferenciado ser social, capaz de
elaborar desnaturalizações pela contraposição a modos de vida semelhantes e diversos. E, por tal
distinção social, embora constituídos na posição através das funções de carregadores,
cozinheiros ou serviçais em barcos recreios ou comerciais dos regatões, lançam-se eles próprios
ao trabalho de mediador cultural para abertura de universos dos demais ribeirinhos.
4 Esta interpretação leva em consideração a memória coletiva dos entrevistados.
5 Os agricultores de várzea do Médio Solimões são reconhecidos por designação mais difundida como ribeirinhos.
6 O registro dessas representações pode ser melhor compreendido pela leitura do livro A Irmã Adonai e a luta social
dos ribeirinhos, por mim organizado para colaborar na institucionalização deste processo de produção de memória
coletiva. Versão mais ampla está sendo por mim preparada, sob o título A luta social dos ribeirinhos. Ambos os
textos se compõem de trechos de entrevistas realizadas durante o trabalho de campo desta pesquisa.
7 Estou referenciada pelas advertências metodológicas de Bourdieu (1989) para desconstrução/construção do termo
região.
4
Tanto a memória coletiva dos entrevistados como a perspectiva hegemônica da literatura
exaltam o intenso e paralelo processo de migração interna, da população mobilizada no nordeste,
e daquela desde há muito fixada na região.8 O destaque ao intenso processo de liberação de mãode-
obra põe em relevo uma dispersão sem outra orientação econômica catalizadora. Esta lógica
explicativa, ao se ancorar na interpretação dos processos econômicos dissociados por ciclos,
valoriza as formas de participação da população frente à sucessão de cultivos ou de extração,
secundarizando a diversidade de vínculos econômicos. Assim, o registro da ruptura da relativa
autarcização dos seringais, da libertação também relativa do aviamento9 e da busca de
referências externas pelos ex-seringueiros, destaca o declínio da população e sua dispersão, até
que ela reapareça vinculada ao cultivo da juta, também desenvolvida por iniciativa
governamental, mas mediada por regatões.10
As cidades de Tefé e Coari, principais na região do Médio Solimões, vão então se
consolidando como centros centrípetos e centrífugos de comercialização e de intermediação de
circuitos mercantis, com destaque para o comércio de produtos alimentícios, vestuário e
armarinho. E também como sedes de centralização de instituições de prestação de serviços,
causa e efeito do direcionamento dos fluxos migratórios no sentido centrífugo. Com exceção das
unidades produtivas de beneficiamento da madeira e de minerais não-metálicos, pode-se afirmar
a inexistência de processos de constituição de indústrias até a década de 70 do século findo. É
o setor de comércio que assegura a integração econômica da população. A expansão e a
diversificação do consumo constroem diferenciados circuitos de vendas de mercadorias
deslocadas de outros centros de produção.11
8 A análise dos dados censitários construídos para computação dos habitantes do estado do Amazonas,
relativamente aos da região Norte, revela a restrição da eficácia da extração da borracha na mobilização e
crescimento do contingente de força de trabalho direta ou indiretamente potencializada. Entre 1872 e 1920, a
população no estado do Amazonas se elevou de 57.610 para 514.099, enquanto que a da região norte como um todo
se deslocava de 332.847 para 1.844.655 habitantes (Evolução da população do estado do Amazonas e da Região
Norte: Censos 1872 a 1950, Anuários Estatísticos, IBGE). O crescimento da população entre 1872 e 1890 está
articulado ao processo de migração de nordestinos para região Norte, assolados por secas das mais intensas
ocorridas em 1877 e 1888 e décadas subseqüentes. Entre 1872 e 1920, a população na região se expande em
332,0%. Entre 1920 e 1940, ela ficou estagnada, acompanhando o declínio da extração da borracha. A partir de
1940, diante dos acordos de Washington e os conseqüentes investimentos públicos e privados, o fluxo migratório
para a região norte foi reiniciado. Os censos de 1950 e 1960 registraram oscilação de população entre 1.844.665 e
2.601.519 habitantes, portanto, incrementos de 29% e 77% sobre a base demográfica de 1940.
9 Forma intermediada de trocas mercantis de diversas ordens, referenciadas pela reciprocidade negativa e sistema de
dominação pessoal.
10 Agentes intermediários de trocas mercantis referenciadas pela subordinação pessoal, a partir das quais os
produtos agrícolas e extrativos locais alcançam grandes mercados e seus produtores obtêm outras mercadorias
necessárias, geralmente ao consumo improdutivo, e créditos sob a forma usurária.
11 Sobre os desdobramentos dessa modalidade de intervenção produtiva por instâncias estatais, ver Barbosa,
1986:389-400.
5
Os ribeirinhos são policultores familiares (agricultores, principalmente, mas também,
complementarmente, pescadores e extratores de recursos da floresta), que, operando em
ambiente de várzea, áreas situadas nas margens de rio, sujeitas a inundações periódicas (de
maior ou menor intensidade), gerem disposições específicas. Circunscrevem o aproveitamento
de áreas agricultáveis a cultivos de ciclo curto. No caso em apreço, a utilização agricultável
abarca 5 a 6 meses, entre uma e outra alagação. E, por essa relação com os recursos naturais, são
portadores de saberes, técnicas, estratégias e alternativas peculiares à convivência com esta
forma de sazonalidade. Mas são também atingidos por efeitos deletérios de ações predatórias que
provoquem estranhas interdependências ao equilíbrio do ecossistema.
Convivem com alagações sazonais e secas, sob alterações relativas no tempo.12 Todavia,
no momento atual, essas alterações são avaliadas pelos entrevistados como produtoras de
desorientações quanto à gestão do tempo e da apropriação de recursos naturais, mormente se eles
fundamentam atividades orientadas por objetivos mercantis. São poliprodutores que planejam os
investimentos produtivos e a gestão do tempo pela regularidade, por esta expectativa proclamada
secular. Portanto, os desvios, mesmo que os atribuindo a uma desenfreada, desquilibrada ou
predatória apropriação dos recursos naturais, são ainda concebidos como contextuais. Poucos
desses entrevistados prenunciam diferenças que induziriam a mudanças estruturais no modo de
relacionamento com os recursos naturais; mesmo porque, acreditam e investem num retorno a
um equilíbrio optimum, desejado ou proclamado, caso as regras de reprodução mútua (dos
homens e do ambiente natural) sejam respeitadas.
Há 30 ou 40 anos atrás, delimitam, essas adaptações eram mais facilmente geridas: ao
alagamento inaceitável, ao fenômeno da terra caída, à expansão exacerbada da extensão das
praias, à dificuldade de acesso à água durante a seca, os moradores de várzea adotavam o
deslocamento da apropriação territorial. Desfilam então com relativa desenvoltura essas
mudanças daqui para ali e dali para acolá. Hoje, avaliam, esse deslocamento se torna mais
limitado, pela definição mais geral das formas de apropriação do espaço das margens dos rios.
Essas mudanças nas formas de apropriação da terra eles qualificam pelas sentenças: hoje essas
terras todas já têm dono; hoje já não existe mais terra devoluta.
Todavia, a configuração de um espaço sócio-econômico, pelo ponto de vista de muitos
dos entrevistados, deve-se aos investimentos para implantação e expansão do sistema católico de
articulação das populações, princípio a partir do qual a concepção da região se altera pelo
12 No que tange ao município identificado, o ciclo de alagações e vazantes/secas configura dois modelos de
organização da vida social e produtiva. O das cheias, que ocorre entre março e junho/julho; e o da vazante/seca,
6
encapsulamento de outros municípios não considerados pelas categorias do sistema
classificatório oficial. A visibilidade deste princípio de integração se expressa pela identidade de
afiliação a uma das Prelazias e pelo delineamento de circuitos de troca e de fluxo populacional
que denunciam o alegado abandono dessa população à sua própria iniciativa.13
A Igreja Católica e o método das desobrigas.
A partir do século XVII, os investimentos intermediários colocados em prática por
diversas ordens religiosas marcaram o tom do caráter da colonização portuguesa, atrelada às
ações mais consistentes no sentido da reconversão de grupos indígenas. Destaca-se então o
jesuíta espanhol Cristóbal de Acuña, autorizado por Felipe IV da Espanha a viajar pelo rio
Amazonas em companhia do capitão-mor Pedro Teixeira, para realizar exaustivo levantamento
sobre os habitantes e as riquezas a serem exploradas. Para fincar as condições práticas de
programa de catequese em que se fundou a colonização, frei Laureano de la Cruz, em 1650,
esteve entre os rios Juruá e Tefé. Dessas incursões, a de efeitos mais práticos esteve a cargo do
Padre Samuel Fritz, que fundou várias missões ao longo do rio Solimões e a quem se atribui a
fundação de Tefé, sob esse mesmo prisma de integração legitimada por ação catequética.14
Na região de Tefé, à fixação dos interesses da Igreja Católica pela fundação da aldeia
pelo jesuíta Samuel Fritz, a serviço da Espanha, entre 1686 e 1688, seguiu-se a evangelização
praticada por padres e irmãos carmelitas, entre 1718-1798, ordem sob tutela da Coroa
Portuguesa. A seguir, há investimentos de ordens religiosas de vinculação com o governo
italiano, mas a ação mais duradoura esteve a cargo dos espiritanos de origem francesa.15
Em 1885, os padres espiritanos desembarcaram em Belém para iniciar os trabalhos de
constituição de um seminário. Em 1897, marcaram a presença em Manaus e em Tefé, onde
iniciaram a construção da sede da Congregação do Divino Espírito Santo em Missão, na boca do
Tefé, e na área onde se encontra a cidade. Destes pontos de irradiação, expandiram a ação
missionária pelas calhas dos rios Solimões, Japurá e Juruá. Construindo escolas para meninos e
meninas, ampliaram o número de sacerdotes e irmãos para consolidar o investimento político-
entre agosto-setembro e fevereiro, com repiquete (curto período de subida das águas) esperado por volta de
dezembro.
13 A primeira expressão de tais relações intermunicipais exalta a dispersão da população e a migração para áreas
ribeirinhas do Solimões, em face da secundarização do processo de extração da seringa. Posteriormente, pela
criação da zona franca de Manaus, a saber, pela criação de outros princípios de inserção no mercado de trabalho e
expansão da comercialização, alternativas cuja apropriação pressupôs instrumentos diversos de pressão no sentido
do acesso ao ensino básico.
14 Cf. Ribeiro, 1996 e Schaeken, 1997.
15 Cf. Schaeken, 1997 e Internet.
7
missionário e moldaram os costumes de uma constituinte população mais vinculada à
administração da gestão local.
De 1948 a 1981, o bispo da Prelazia de Tefé criou Paróquias em Carauari, Alvarães, Foz
do Jutaí, Itamarati, Uarini, Caitaú, Maraã e Fonte Boa. Data também deste contexto a abertura da
Escola Normal Rural e do Ginásio Espírito Santo, instituições responsáveis pela formação dos
quadros da administração municipal.
A importância da Igreja Católica na construção do sistema de poder em que se fundou o
processo de colonização também perenizou suas marcas nos mais importantes edifícios até hoje
erguidos em Tefé e Missões, onde funcionavam o Seminário São José (1913), o Colégio Santa
Tereza ou Escola para Meninas (1919), o Seminário situado nas Missões (1897) e a Escola
Agrícola e Industrial de Boca do Tefé, criada em 1898, dotada de diversas oficinas para
formação de trabalhadores manuais especializados. À obra dos espiritanos vieram se agregar, em
1925, as representantes das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, voltadas para educação
das moças destinadas às tarefas domésticas e aos primeiros atendimentos médicos. Embora
a ordem espiritana tenha permanecido a mesma, a partir de 1946 ela fora reproduzida através da
presença de padres de origem holandesa, que lá permaneceram até recentemente.
As ações em parceria entre protagonistas da Igreja Católica e do Estado para constituição
do sistema de poder econômico e político alcançaram longevidade. Excetuam-se os momentos de
pressão de outras associações religiosas e corporativas, por ocasião da proclamação da república,
quando, por exemplo, representantes dos interesses da Maçonaria questionaram a transferência
de subsídios para institutos educacionais da Igreja. Todavia a aliança de interesses foi reafirmada
até que o sistema de ensino foi sendo assumido pelo Estado como prestação de serviço de direito
universal. Atualmente, nos dois municípios, os prédios que antes serviam aos educandários
religiosos estão alugados ao governo do Estado, cujas secretarias de educação administram
cursos de ensino médio.
Os viajantes dos séculos XVI a XIX registraram a presença de vários agrupamentos
indígenas fixados nas margens dos rios, mas as ações dos espiritanos e dos redentoristas
acentuaram o trabalho de catequese concentrado nas sedes institucionais. Por isso, no registro da
memória do processo catequético, há insistente relevo sobre o número de órfãos e órfãs tutelados
pelo educandário ou de jovens a serem instruídos segundo padrões europeus.
O principal investimento catequético dos porta-vozes da Igreja Católica em relação à
população que fixara residência nas margens dos rios fundamentava-se no modelo das
desobrigas, trabalho missionário difundido em viagens anuais através de canoas a remo, quando
os agentes eclesiásticos reafirmavam o sistema de crenças e a afiliação dos catequizados, pela
8
participação em rituais de comunhão e batismo.16 As desobrigas representavam atos de
mobilização para ampliar as adesões, mas também momentos de escuta e tomada de
conhecimento das condições de vida dos que estavam afastados das sedes dos municípios. Por
esse contato, mesmo que descontínuo, os agentes eclesiásticos foram consagrados, inclusive por
auto-atribuição, especialmente do bispo, enquanto porta-voz das demandas frente a uma
presença ativa do Estado junto à população. As reivindicações giravam em torno da assistência
médica e da universalização do sistema de ensino fundamental. Através de doações vindas de
organizações religiosas internacionais, o bispo da Prelazia de Tefé construiu o Hospital São
Miguel, inaugurado em 1968, hoje entregue ao governo estadual. Também antecipou-se à ação
do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, pela instalação da Radio Rural de Tefé,
para ministrar aulas radiofônicas.
A reivindicação da presença de serviços advindos do Estado, num contexto de
redefinição de seu papel, a partir do golpe militar, permitira que no município de Tefé se
instalasse a ACAR, em 1970, tempos depois substituída pela EMATER e, mais adiante, pelo
IDAM. Naquele contexto, a ACAR estava definida como instituição parceira no processo de
difusão de novos saberes e de adesão a visões de mundo consideradas sob o prisma da abertura
de universo.17 Da mesma forma, pela liderança do bispo de Tefé, demandas foram encaminhadas
para instalação do campus avançado da Universidade de Juiz de Fora, sob afiliação ao Projeto
Rondon, ato celebrado e oficializado em 13 de junho de 1969. Através dos cursos oferecidos por
este programa de extensão, a cidade de Tefé passou a contar com um quadro de funcionários
capazes de melhorar e ampliar a pauta de serviços, especialmente educacionais.
O MEB – Movimento de Educação de Base e a devoção associativista
A prática educativa difusionista fora consolidada pela ação direta dos agentes
educacionais do MEB, instalado no início da década de 1960. O MEB fora definido como
instituição paralela às ações missionárias e ao quadro de agentes catequistas, estimulando a
constituição de presidentes e diretorias de clubes comunitários, clube de mães, cooperativas e
sindicatos.
16 A desobriga, método pastoral hegemônico até o final da década de 60, era prática comum entre as diversas
ordens religiosas presentes na Amazônia. As missões nela objetivadas implicavam um plano de visitas ou o
agendamento cronológico na ida da comitiva e a realização dos atos rituais na volta. Exprimia assim a
descontinuidade do investimento institucional em face da dispersão da população.
17 Sobre a instalação dessas instituições de difusão de tecnologia, baseio-me no texto de dissertação de mestrado de
Ramos de Albuquerque, 1984.
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A presença de todas essas instituições provocou deslocamentos em termos de hegemonia
de projetos de integração da população. Os titulares locais da igreja Católica, em sintonia com
novos projetos libertários propostos pela diretoria nacinoal de seu corpo eclesiástico,
apresentaram-se então como portadores de um projeto pedagógico emancipatório de libertação
da população. E, assim, abraçaram ou construiram a causa dos ribeirinhos e lhe deu visibilidade
política. Neste contexto, os ribeirinhos eram exaltados pela carência, mas também pela
potencialidade transformadora de sociedade.
Assim, da realização da desobriga (visitas específicas de sacerdotes para ministrar
sacramentos) e da valorização da devoção doméstica, o método missionário passou a preconizar
a promoção social e evangélica. Ela fundamentava-se no exercício de reflexão que viesse a
permitir o reconhecimento das condições de existência do ribeirinho, das causas que assim o
constituíram. Desta perspectiva, ele, necessariamente, estava fadado à mudança, inclusive das
alternativas das condições de vida.
Em 1972, a Prelazia de Tefé cria as CEB’s e, a partir de uma nova concepção de Igreja
Viva, não totalmente dependente da ação de padres e irmãos, consolida a ação missionária
sistemática, de eficácia contraposta às descontínuas desobrigas. O trabalho missionário fora
então transferido para os agentes pastorais e expandido pelos aglomerados fixados às margens
dos rios, desde então reconhecidos como comunidades.
Segundo a memória dos entrevistados, eles acederam ao convite, por vezes insistente, dos
representantes do MEB, para que se agregassem e se unissem, de modo a se tornarem
beneficiários de recursos de destinação comum, caso em especial da escola. E desde então foi
instituído um modo de organização social e política, cuja expressão mais visível gravitava em
torno do trabalho gratuito para a construção de escolas, casas comunitárias e campos de futebol.
A adesão dos ribeirinhos, agentes da legitimação do proposto convívio fraterno dos parentes e
vizinhos, correspondeu à transferência de um rádio – o cativo –, posto que apenas autorizado a
transmitir atos religiosos e aulas para alfabetização de crianças e adultos.
Também por influência dos agentes eclesiásticos, é constituído em Tefé, em 1974, o
Projeto Agrovila, destinado a famílias ribeirinhas vitimadas pelas sucessivas enchentes do início
desta década. Os agricultores foram então orientados para o desenvolvimento de culturas
perenes, criação de animais de pequeno porte. Deslocando-se para terra firme, mantiveram-se
referenciados a um modo de vida organizado pelo ideário do contrato entre os comuns, reificado
na idéia de comunidade ou vila comunitária.
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Na Prelazia de Tefé foram instituídas as Pastorais, inclusive Rurais, agregação a partir da
qual foi coletivamente elaborado o ideário humanitário e cristão que estimulou, de início
festivamente, os ribeirinhos em torno da luta pela preservação dos lagos.
Evangelização e preservação ambiental
As formas de organização política dos ribeirinhos frente à luta pela preservação de lagos
guardam aproximação com os modelos de agregação oferecidos como referência pela
intervenção da Igreja Católica, através de suas instituições paralelas. O trabalho educativo para
inculcação do modelo comunitário de construção de identidade, reafirmava as relações
consangüíneas e afins do parentesco e a consagração dos laços de vizinhança. Essas relações
constituíram substratos às formas de instituição do nós, agora irmanados pela referência ao
sistema de crenças cristão. Os ribeirinhos, no caso cristãos praticantes agregados em
comunidades (rurais), e agentes mobilizadores afiliados ao MEB são então partes da mesma
historia.18 Por esta ação política, as unidades de consolidação do sistema de poder local foram
desenhadas por divisão espacial e regional específica: configuradora da presença e da
abrangência da Prelazia em municípios.
As condições de construção do problema ambiental (capitaneadas pela ação missionária)
decorreram de um contexto político de mudança no processo extrativista e de captura,
intensificado diante de novos recursos tecnológicos e, por isso mesmo, realizado em condições
que excedem as possibilidades de reprodução dos homens e dos animais. A captura predatória
das aves e dos peixes foi então colocada em questão, tendo em vista o reconhecimento dos
interesses dos ribeirinhos, condenados, por tais fatores, à escassez e à fome acumulativas.
O corpo de agentes da Prelazia de Tefé conseguiu, a partir da década de 80, organizar
uma atuação sistemática em agrupamentos redimensionados enquanto comunidades de base.
Muitas delas foram atingidas por escolas radiofônicas e alguns desses lugarejos estão
integrados através do culto dominical. Sob esta base organizativa, os problemas e denúncias dos
ribeirinhos (cristãos) foram transformados em questões políticas encaminhadas para
reconhecimento pelos titulares do poder municipal e estadual (local). A questão ecológica, não
se apresentando como problemática em si mesma, operou e opera como instrumento de
mediação para incorporação de outras vertentes da organização suscitadas pela evangelização. O
18 Em conseqüência, a maior parte dos textos que registram as condições de vida dos ribeirinhos é construída no
contexto da literatura produzida por agentes do campo religioso. Destacam-se aqueles (textos) que integraram os
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texto emblema da construção da problemática, a seguir reproduzido, é esclarecedor da
interpretação por mim anunciada:
«Evangelizar é colocar-se a serviço da vida. ‘Que todos tenham vida e a tenham em abundância’.
A pastoral rural destaca que o relacionamento com a natureza é uma dimensão da existência humana
iluminada pelo Evangelho. Preservar o meio ambiente é condição essencial para preservar a própria
vida humana»(Regis, 2001: 56).
Os princípios éticos e filosóficos que orientam as ações sociais com vistas à preservação
ambiental assim se fundamentam:
"O que Deus criou foi bom. Continua bom. Será que sabemos usar os bens da sua criação? A mãe
Natureza impõe condições para alimentar e enriquecer seus filhos. Ela nos oferece muitos presentes.
Não devemos ser gananciosos, querendo arrancar de suas mãos seus tesouros. Boas maneiras pedem
que pesquisemos primeiro para saber o que fazer.
Deus disse: fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra...
E Deus viu que isso era bom:
Há muita água na Amazônia. E muitas variedades de água. A água num lago, perto de um grande
rio, não é igual em composição à que faz parte de um igarapé de terra firme.
A harmonia ecológica é tão sutil que a diminuição ou a eliminação de árvores frutíferas da várzea
provoca uma queda na produção de peixes nos rios e lagos. Os peixes alimentam-se de frutas que
caem dos galhos nas épocas de cheias ou das folhas da vegetação ribeirinha.
Um pássaro ou ave não é útil apenas por sua capacidade de cantar e nos alegrar, o que já seria algo
importante. Tem uma variedade de funções no ecossistema, e sua perda seria algo lastimável. Uma
terra sem pássaro é um lugar amaldiçoado (texto apócrifo, impresso para pedagogicamente referenciar
reuniões de catequistas/agentes comunitários).
Este é o ideário em torno do qual os ribeirinhos católicos organizam o trabalho
comunitário para tentar deter a entrada destruidora de pescadores e peixeiros. De início, os
efeitos foram tão visíveis que estimularam uma ampla adesão. Todavia, as constantes disputas
entre vizinhos, os riscos de conflitos abertos com pescadores, as perseguições políticas - muitas
vezes acompanhadas de violência física, em casos mais extremos, de assassinato -, ao lado de
uma ação concebida como injusta por parte dos funcionários do IBAMA, têm desestimulado os
ribeirinhos na continuidade da preservação dos lagos. E têm também levado à secundarização da
atividade de pesca, especialmente aquela em que tempo e recursos sejam mais mobilizados e, por
meios de objetivação dos princípios missionários definidos pelos documentos da CNBB, destinados a orientar a
ação pastoral dos agentes do MEB.
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conseqüência, maiores riscos de perda por apreensão de instrumentos de trabalho e pagamento
de multas.
Por iniciativa de titulares da prefeitura, alguns lagos foram preservados e certos deles
selecionados por portarias expedidas pelo IBAMA - Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e
Recursos Naturais Renováveis. No entanto, devido aos conflitos deflagrados em função da
contraposição (direta e pessoal) que ribeirinhos devem assumir diante dos pesqueiros ou
vizinhos orientados por interesses diversos, na prática nenhum dos lagos alcança o status de
preservado ou protegido. São então invadidos constantemente e, na maioria das vezes, pelos
próprios moradores interessados na expansão mercantil da captura de peixes.
O debate em torno da sustentabilidade ambiental também se consubstancia por uma
prática de denúncia e encaminhamento de reivindicação de imposições de limites aos riscos de
destruições, decorrentes da implantação do núcleo de exploração da Petrobrás no Rio Urucu e
Solimões. Estes riscos, pela perspectiva dos agentes que se sentem ameaçados, ampliam-se
diante da construção de um poliduto e gasoduto para escoar a produção.19
Em algumas circunstâncias, os representantes da Prelazia de Tefé apoiam a transferência
de ações por alguns funcionários do IBAMA, especialmente aquelas delegadas ao (voluntário)
agente comunitário erigido à função de preservador de lagos ou peixes, sob o cargo informal de
agente ambiental.
A despeito de a questão do controle dos lagos ter emergido há aproximadamente 30 anos,
ela, até o ano de 2004, quando finalizei o trabalho de campo, ainda não obteve um
reconhecimento que lhe assegure autonomia nas práticas de interferência por modalidade de
políticas públicas. A preservação dos lagos continua a contar com investimentos de lideranças
vinculadas à igreja, encarregadas da negociação com pesqueiros invasores.
Na medida em que os agentes locais não obtêm apoios institucionais mais amplos, eles se
submetem a desautorizações e, não raramente, a riscos de extermínio absoluto por outros tantos
que, não os reconhecendo como autoridades dotadas de legitimidade e legalidade para limitar o
ir-e-vir e a apropriação de recursos naturais, atribuem-lhes desavenças pessoais, solucionadas
segundo certos códigos locais de conduta e honra.
Tais ações estão longe de reproduzir o sistema de parcerias institucionais que subjaz aos
movimentos de luta pela sustentabilidade ambiental. Pelo contrário, são incursões que aparecem
19 Alguns ribeirinhos referem-se a problemas de erosão causados pelo aumento da intensidade de banzeiros
(movimento das águas em ondas, diante de ventos fortes e deslocamentos por passagem de embarcação de grande
calado ou de rápida velocidade), decorrentes da passagem de aerobarcos e de grandes navios de carregamento de
petróleo. Em comunidades localizadas mais próximas aos canais de navegação de grandes barcos, esta erosão vem
causando enormes prejuízos pela queda de dezenas de mangueiras, geralmente carregadas de frutos.
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como modos de imposição de perspectivas e temáticas. Estão muito distanciadas das percepções
instituídas pelo convívio com agentes idealizadores da sustentabilidade como valor ético para a
economia e certos modos de vida. Essas precárias associações locais não permitem a formulação
de modelos de gestão ambiental, não asseguram a diversificação das atividades econômicas e
manejo de sistemas extrativistas segundo a preservação de espécies.
Esta categorização ultrapassa o sentido da localização ou habitat, para dimensionar o
caráter sócio-político da constituição e reprodução de um grupo social.20
Considerações finais
Para compreender a posição política e econômica com que são reconhecidos os
ribeirinhos, é fundamental entender os investimentos políticos na conformação de padrões de
comportamentos e atitudes, de ethos e visões de mundo, mais facilmente perceptíveis em
cristalizações institucionais. É mister trazer à tona, por meio da reflexão, os respectivos
exercícios de imposição de modos de relacionamento e de adoção de referências
comportamentais. É o caso da associação da identidade desses produtores com um território,
unidade político-administrativa e cooperativa cujo pertencimento assegura inúmeras formas de
legitimidadde às suas ações. Estes produtores se apresentam como agentes sociais numa ou a
partir de uma comunidade delimitada. Os significados atribuídos ao termo comunidade tornamse
impositivos ao entendimento das relações sociais em que estão integrados. Porém, a
complexidade aumenta porque o termo adquire múltiplos significados. Ora é a mínima unidade
territorial ou localidade; ora é unidade político-administrativa porque sede de prestação de
serviços públicos e comunais (escola, capela, campo de futebol, motor de luz, casa comunitária,
sede da associação de produtores). Dessa perspectiva, é base para formulação de demanda e
espaço público legitimado para os investimentos dos serviços municipais. Ora corresponde a um
grupo de lealdades primordiais, preferentemente com reconhecimento oficial, pelo registro da
fundação da associação em cartório. Equivale então à unidade associativa, base de gestão de
ações políticas.
Todos esses fatores não derivam tão somente das intenções de ribeirinhos mobilizados
por convivência com delimitações espaciais e temporais singulares. Eles também são caldatários,
20 Torna-se necessário reconhecer que o termo ribeirinho qualifica os moradores em margens de rios e lagos
sujeitas a inundações. Esta categoria tem sido estudada por diversos autores como Sigaud, et al., 1987: 214-290 e
Faria et al., 2002. No entanto, a referência imediata do termo tem levado, sob particularidade generalizante, à
associação com os que se encontram na Amazônia, talvez pela pujança da mobilidade do volume das águas, mas
também por todas as associações fantasmagóricas que são imputadas à Amazônia.
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como demonstrei, da sua inserção em campos de forças sociais em concorrência e/ou
complementaridade, diante da construção e apropriação de recursos.
Estes campos de forças sociais são também organizados para constituição de um sistema
de produção e extração de excedentes; bem como de um sistema de poder correspondente aos
ideários que justifiquem as interferências civilizadoras sobre uma das Amazônias. Estas
representações ora acentuam o irretorquível, ora o indomável, ora o infinito, mas,
contraditoriamente, também um espaço de intervenção para correção de rotas, sinalizadoras da
aproximação de idealizações sobre uma natureza sacralizável; ou sobre uma natureza propícia à
realização de sonhos de acumulação de rapina. Todas essas intenções econômicas e políticas,
nesse mesmo campo, são produzidas e diferencialmente reproduzidas.
Por isso mesmo, é fundamental entender o campo de concorrências institucionais, cujos
agentes estão diferencialmente posicionados. E, nesse sistema de posições, inclusive os
ribeirinhos, isto é, aqueles motivados pelo desejo de serem reconhecidos como dotados de
atributos positivos. Estes atributos são aí formulados, isto é, por efeitos das relações de força
nesse mesmo campo constituídas. Essa apropriação, por efeito dessa dinâmica, assenta-se na
denúncia de que estão abandonados pelos poderes públicos, condição para o encaminhamento de
reivindicações qeu correspondam aos investimentos asseguradores de direitos sociais. Os
ribeirinhos participam assim da concorrência pelo investimento político capitaneado pelos que aí
disputam a hegemonia das formas de enquadramento, de adesão e de modelação da categoria
social que os reconhece socialmente. Portanto, ribeirinho é categoria mais política que
econômica, razão pela qual é alçada à remissão qualificadora de um modo de vida advogado
como sui generis.
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15
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